Por Lídia Ferreira
Na Amazônia, algumas borboletas se alimentam das lágrimas de quelônios em um hábito chamado lacrofagia. O que já era conhecido na ciência virou arte pelo olhar do ator e diretor Ítalo Rui que, em parceria com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Musa (Museu da Amazônia), transforma esse comportamento da natureza em um espetáculo teatral. “Borboletas bebem lágrimas de tartarugas” é o título da montagem que fala sobre memória, ancestralidade, luto e autoconhecimento. A temporada de estreia já está em cartaz em Manaus (AM).
O monólogo teatral conta a história de Tapy, uma tartaruga que teve que aprender muito cedo sobre o tempo do rio, o tempo das coisas e o tempo de si. Em cena, cinco personagens são vivenciados pelo ator Ítalo Rui, que usa o teatro de formas animadas, onde texto, corpo e manipulação de bonecos compõem, juntos, a linguagem do espetáculo. “Desde as primeiras conversas, Ítalo me contou sobre o desejo de incorporar em seu próprio corpo os sentimentos das personagens. Então, ele, além de manipular os bonecos, também os vivencia no corpo, na voz e na história que está sendo contada, fundindo-se à narrativa e criando uma presença híbrida entre ator e boneco”, explica a preparadora de atores, Viviane Palandi.
Outra proposta de “Borboletas bebem lágrimas de tartarugas” é trazer o público para o palco que, diante do cenário, dos recursos visuais, sonoros e da interação com o intérprete em cena, acaba por vivenciar uma atmosfera da Floresta Amazônica por meio da arte. “Tem sido muito curioso observar a receptividade das pessoas. O público tem se sentido ligado ao rio, como se estivesse imerso nas águas — essa é uma fala muito comum. E, para nós, é bom ouvir isso, porque percebemos que o trabalho, de fato, alcançou o outro”, comenta Ítalo Rui, que também assina a direção. “Nós queríamos que o imaginário das pessoas fosse preenchido pelas sensações que estar na Amazônia provoca na gente”, complementa.
A proposta cênica de imersão na natureza reflete os bastidores, onde a própria equipe artística passou por pesquisas de campo ao lado de cientistas da Amazônia. No Centro de Estudos dos Quelônios da Amazônia (CEQUA), eles foram além de acompanhar a rotina dos pesquisadores por um mês: participaram de atividades como alimentar, limpar e cuidar das tartarugas da Amazônia. “Apesar de as perspectivas serem muito diferentes, Ítalo e sua equipe são muito simpáticos e a interação foi muito positiva. Foi fácil encontrar pontos de convergência entre ciência e arte”, conta Gabriel Jorgewich Cohen, biólogo e pesquisador adjunto do Inpa.
No Museu da Amazônia, todo o ciclo da lagarta até a transformação em borboleta foi acompanhado pelos artistas. A pesquisa artística em campo incluiu desde a coleta da planta hospedeira e o apoio à alimentação do animal até a observação direta da metamorfose em laboratório, quando, enfim, a borboleta surge. “Trazer eles para essa convivência com a gente foi empolgante porque o que é muito comum para nós, para eles era novidade; eles ficavam maravilhados com cada processo”, conta Raymê Carvalho, bióloga responsável pelo Laboratório de Borboletas e pelo Borboletário do Musa.
Outro ponto que a pesquisadora destaca é a preocupação da dramaturga Pricila Conserva e do próprio diretor e ator em compartilhar o texto para que os cientistas pudessem avaliar se as informações artísticas eram coerentes com as científicas. “Eu achei muito sensível da parte deles, assim como achei o texto sensacional também”, conta Raymê Carvalho. “Um dos maiores desafios foi justamente pegar toda essa experiência de campo, desses animais e das relações que eles têm na natureza, e trazer isso para a dramaturgia”, conta Pricila Conserva.
Temporada gratuita em Manaus (AM) e previsão de estreia em Fortaleza (CE)
“Borboletas bebem lágrimas de tartarugas” conta com seis apresentações em sua temporada de estreia em Manaus (AM), todas com entrada gratuita.
No próximo dia 22 de abril, o INPA recebe o espetáculo às 9h da manhã. Já no MUSA, serão duas sessões no dia 25 de abril: uma às 9h e outra às 15h. Na última semana, a montagem teve duas apresentações no Teatro da Instalação, no Centro Histórico da capital amazonense, e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Para o segundo semestre, a previsão é de uma temporada em Fortaleza (CE), onde o artista amazonense Ítalo Rui é radicado.
Ítalo Rui também assina a direção e o argumento do espetáculo que, para ele, carrega a vivência nortista e amazônida em sua poética, especialmente por contar com uma equipe formada por profissionais amazonenses ou com experiência em narrativas do Norte e Nordeste.
“Essa nossa vivência ajuda a pensar essa poética, a pensar de forma sensível esse trabalho sobre a Amazônia”, diz.
Além dele, o espetáculo tem dramaturgia de Pricila Conserva; preparação de ator e assistência de direção de Viviane Palandi; produção assinada por Ana Oliveira; figurino e teatro de bonecos de Davi Martins; trilha sonora original de Ayrton Pessoa; operação de som de Elson Arcos; iluminação de Paulo Martins; cenotécnica de Juca Di Souza; além de Raiana Nascimento como intérprete de Libras; identidade visual assinada por Yule Bernardo; assessoria de imprensa feita por Lídia Ferreira; e Matheus Soares como social media.
O projeto foi contemplado no Edital nº 07/2024 — Fomento à Execução de Ações Culturais de Teatro, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado do Amazonas.
SAIBA MAIS
“Borboletas bebem lágrimas de tartarugas”
Sinopse:
A memória de uma tartaruga com um pouco de idade pode ser boa, mas também pode falhar. Em Borboletas bebem lágrimas de tartarugas, somos convidados a conhecer a história de Tapy, uma tartaruga que teve que aprender muito cedo sobre o tempo do rio, o tempo das coisas e o tempo de si. Amadurecer em um mundo em que parece que nada mais nos pertence exige muito. O que resta é rememorar os ensinamentos daquelas que vieram antes de nós e seguir em frente, navegando ou escavando, confiando que, assim como o rio, tudo se move, tudo se transforma.
Ítalo Rui tem prêmios por monólogos inspirados em animais
“Borboletas bebem lágrimas de tartarugas” é o terceiro solo inspirado em um animal e/ou bicho como elemento central na dramaturgia, protagonizado por Ítalo Rui. Em 2024, ele recebeu dois prêmios por “Provérbios de Burro”, no Festival de Teatro da Amazônia — melhor dramaturgia e melhor ator. O espetáculo recebeu, ao todo, quatro indicações. A montagem é resultado de um trabalho de pesquisa continuada do artista, que também montou “Se eu fosse um rato” (2021).
Trajetória artística
Mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Ítalo Rui atua no teatro, cinema, streaming e nos bastidores como ator, produtor, crítico de teatro e criador de projetos culturais. Formado em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com graduação sanduíche em História da Arte pela Universidade de Coimbra, em Portugal, é ainda autor dos livros Veredas da Crítica Teatral Manauara (2021) e Do diário à Cena (2022).
Atualmente, é um dos coordenadores do projeto Potências das Artes no Norte (PAN), contemplado no Programa Palco Giratório 2022, atuando para desenvolver práticas teatrais na Amazônia por meio da plataforma de streaming Pan Play. Em 2020, integrou o elenco da série Aruanas, exibida pelo Globoplay, e do longa-metragem O Último Azul, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, do diretor pernambucano Gabriel Mascaro. Atualmente, prepara-se para estrear a série Alucinação, que vai narrar a vida do cantor e compositor Belchior, produzida pelo Canal Brasil e Urca Filmes.
Publicado em: 2026-04-22 11:21:00 | Autor: <span>NINJA</span> |


