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Brasil

A inexorável espinha dorsal do tempo em A Moratória

A inexorável espinha dorsal do tempo em A Moratória

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Tal como se estivéramos expostos a um trompe l’oeil, a imagem acima nos sugere pistas falsas e equívocas. Quiçá impressões fugidias, erráticas, enganosas. Sigamos por tal vereda incerta – o obstinado jogo/jorro da ilusão aludida. É que o acima disposto pouco ou nada esclarece do que está por vir, do que está por detrás, do que irá se desenvelopar tão logo. O de que sabemos, testemunho de sala de ensaio, não se apresenta nas pistas deixadas pela imagem fotográfica.

Trata-se de uma sala de espetáculos, certeza inequívoca, afinal se pode perceber a boca de cena, o proscênio, o fundo do palco, o cortinado que anuncia a coxia, o urdimento para disposição de varas, luz, cenários, algumas poltronas desocupadas, um, dois, três degraus de escada a vencer o fosso/o hiato entre palco e plateia. Entretanto, não há ninguém, e o vazio de tudo é o que assalta os olhos. Vazio descarnado, ausência de gentes – atuadores, equipe, técnicos, sequer um espectro sorrateiro dando as caras, nada, nenhum. Vazio que empanturra, que engolfa, que neutraliza. Vazio permeado de sabotagem na que o tempo não escorre, não flui, não vinga. E parece que é do tempo o de que se trata em A Moratória… por ora, nada, apenas a repetição de uma pista imprecisa que [nós] inventamos, este feixe de espinhas que recorta em duas metades o assoalho do palco.

Do tempo, apenas o seu congelado no corpo da fotografia – átimo recluso, amordaçado, captado pelo clique da máquina que registra e recolhe – tempo suspenso, tempo inconcluso até que se conforme o ato litúrgico de que pode o teatro, o espetáculo derramado sobre nós, outra fatia de ausência, ainda… Afinal, até aqui, nada, ninguém. Sequer um ensaio de promessa, sequer uma partitura na forma de bilhete deixado no chão do palco, ou nalguma ordem do dia; sequer a folha corrida e rabiscada do texto dramático, a escaleta em pontilhados – os ritmos traçados a uma paleta de cores, a marcação prescrita e repetida em garatujas, sequer isso. O que há e insiste é o vazio da palavra que não absorve ou catapulta.

Em contraponto a esta ausência de lastro, a insistência da luz que superpõe e hipertrofia tamanha ausência. Luz destemperada, deixada ao descaso, sem trabalho ou desenho. Luz que testamenta o que não há. No mais, nada, sequer o rasto atrás, a ruína que se avizinha.

Mas sigamos sem pressa. Afinal sabemos, eu sei, eu conto como quem adianta um ponto. Se trata do preparo ou da prévia do mundo que tão logo nos chegará – Daniel Herz se antecipa sem gestos ou voz, em alusão ou mania, ao cortejo que será a sua montagem de A Moratória, texto de Jorge Andrade, com atuação ótima da Cia Churros de Polvo1.

Onde que isso, onde a mão invisível de Daniel Herz – se até aqui nos obstinamos a cartografar a ausência de representação, toda e qualquer? Eis uma pista de ingresso à leitura de cena; este jogo de sete erros, um quadro ao lado de outro quadro, o convite numerado ao borderô, a lista de convidados acoplada a senha de alusão, a lanterna mágica que acende e apaga, artifício que mais confunde do que comunica, o trompe l’oeil, a farpa o cisco no olho, a nebulosa membrana em catarata, a interminada cenografia de composição do espaço cênico – diagrama dispositivo que complica, os objetos maldispostos àquele que espreita, e aquela fileira (será do que é feita esta fileira?) como se fora um corte uma cisão a fenda a vaga por onde alguém quiçá derrape e se aprofunde.

De que está composta tal fileira, este tracejado metálico, este costado que ilude, a inexorável espinha dorsal do tempo? Será das vértebras de um animal extinto, o tempo esgotado, a moratória dessangrada ao limite, seca, desidratada pela qual escorra o irresgatável, a carnadura do não-mais?

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Agora é outro o plano de visada, o ângulo e a curvatura da imagem; também é outra a luz2, assim como é outra a profundidade de campo; outra, a função dos objetos cênicos a recortar o palco. A nova disposição apresentada nos dissuade de qualquer insistência nos argumentos de antão.

Deixemos de lado, as vértebras, o dorso do animal extintoque todos somos, as peças de mobiliário de Museu de História Natural. Nada aqui, agora, remete aos efeitos de difração de um trompe l’oeil. Daniel Herz faz uso legítimo de seu selo de imprimatur, estamos diante de um plantel de cadeiras. Mas não só.

É que agora, no palco, enxameia um tanto de gente onde há pouco não havia ninguém. São os atuadores da Cia Churros de Polvo. Estão dispostos em fila indiana como se esperassem o apito do trem à plataforma, ou o chamamento do nome pelo mestre de classe, ou quem sabe, eles aguardem alguma deixa que lhes toque a ânsia da palavra, o carretel do texto escapando da embocadura, os gestos encetando as marcações, o figurino se costurando aos modos dos personagens, e o repasse do que, à exaustão, se construíra à sala de ensaios.

Iniciada a peça, e no seu andamento, os atuadores saltam de lugar a lugar, uma a uma – ao primeiro apito imaginário ‘levantar’, ao segundo apito ‘arredar-se para o lado’, ao terceiro apito, ‘achegar-se para frente’, ao quarto silvo, ‘sentar-se’; mister é não pular de cadeira, errar o controle da bola’, imprescindível é não perder o passo à contradança, evita-se o pisar nos pés alheios – supremo crime modular, a biodança exige treinos à exaustão, cinco vezes por semana, seis vezes se for preciso, férias em suspenso, fim de semana na praia ou na serra postergado, os atuadores da Cia. Churros de Polvo estão afiadíssimos, cadeira a frente, uma a uma, cadeira atrás – como a um eterno retorno compulsivo em compasso coreográfico, uma roldana a girar em moto-contínuo.

Agora e ali, a esta fileira central, percebemos o tempo a escorrer irresgatável. Daniel Herz pega pelos cornos a questão central de A Moratória, o tempo e seu passamento, a inexorabilidade anunciada pelo carrilhão pregado à parede da fazenda ou na sala da casa minúscula onde gora e agoniza Joaquim, o patriarca da peça de Jorge Andrade.

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Eis acima o primeiro movimento da montagem de A Moratória. Prescindindo do que sugeria a rubrica originária e de tom realista do dramaturgo, Daniel Herz evocou a Jorge Andrade em pessoa para o esclarecimento do público presente ao espetáculo.

Meu nome é Jorge Andrade, mas agora eu sou Marcelo. [Apontando para o lado direito do público] Aqui, do lado direito, 1929, nossa fazenda, passado. [Apontando para o lado esquerdo] Aqui, do lado esquerdo, 3 anos depois, 1932, pequena cidade, presente3.

E é só. No mais, será o acordo firmado não firmado da convenção teatral. Estamos dentro, sorvidos, tragados, em sinonímia com o processo cênico posto em jogo. Da impetuosidade decadente da fazenda de café, não resta mais do que um cabideiro, um vestuário pouco ou quase nenhum. Da sobrevivência arrastada pela crise mundial e seu rebatimento na estrutura agroexportadora, a máquina de costura na que Lucília entrega a sorte dos seus dias4. Mas Daniel Herz e seus atuadores da Cia. Churros de Polvo nos conduzem, maestros, por este volteio na história da formação social brasileira.

Daniel Herz conta um pouco de sua visada sobre as personagens de Jorge Andrade. Da inadequação de Marcelo, alter-ego do dramaturgo, o seu desajuste, personagem que parece naufragar nas incertezas de um tempo revolto em que o velho está morto e o novo ainda não deu as caras. A um primeiro olhar, de uma perspectiva judicante, Marcelo será alvejado por uma saraivada de predicativos moralizantes. Todo modo, se nos distanciamos um pouco, podemos perceber que, talvez, Marcelo seja um tipo sui generis de personagem – ele é aquele que está ‘aprisionado no entretempo, na fenda, no vácuo intersticial, no hiato atordoado’ (palavras minhas) para o qual ele não dispunha de repertório de saberes e modos em acúmulo.

Noutro lugar se encontra Joaquim, o pai, que se recusa, peremptório, a compreender o processo que lhe abarca, que (nos) abarca a todos. Nos termos de Daniel Herz:

Personagem que ficou preso nos seus valores – o aprendizado com o pai, o jeito de administrar a fazenda, de educar os filhos. Personagem que não consegue tecer qualquer autocrítica e pensar ‘será que fiz alguma coisa errada, será que tenho que mudar?’ Isso é o que Joaquim não faz. Seu aprisionamento lhe traz consequências gravíssimas5.

Desde dentro de seu rechaço oblíquo e opaco, Joaquim repete seu mantra em uma espécie de flâmula descarnada: Ainda somos o que fomos – mas quando e onde que isso? Ou noutros termos, até onde que isso? No horizonte derradeiro, se equivalem ruína, despojo e a quebra psíquica-emocional a que alude Daniel Herz.

No outro vértice, estão as personagens femininas que protagonizam o enredo de Jorge Andrade, Helena e Lucília.

Nos termos de Daniel Herz:

As mulheres são mais sofisticadas, num certo sentido. A Lucília, a filha, carrega uma contradição interessantíssima. Ela é apaixonada pelo Olímpio, mas diferentemente do Marcelo, ela sabe que não pode abandonar a família em crise, então ela acaba se tornando refém daquilo. Ela paga um preço muito alto. Tem um lado muito bonito: o esforço de sustentar a família com o trabalho na costura. Mas com esse preço, uma amargura, uma tristeza, sobretudo em 1932, mas ainda assim, ela mantém a atitude heroica, não podendo seguir em frente. Já a Helena, a mãe, é uma personagem linda. Personagem que tem consciência de todos os problemas – do erro, por exemplo, de Joaquim ter vendido a prazo o café. Consegue entender a sensibilidade do Marcelo. Talvez tenda de uma forma um tanto desigual a este filho, mas de toda forma, no que pode, ela tenta manter a estrutura da célula familiar em harmonia. E irá pagar um preço alto por isto. O final é lindíssimo, o seu acolhimento quando da quebra emocional de Joaquim, o marido6.

De nossa parte, afirmamos a sutileza e a acuidade do olhar de Daniel Herz. Sutileza por escolher situar o enredo na dinâmica interna vivenciada pelos personagens, está ali o foco, está ali a opção moldada por Jorge Andrade e reatualizada na montagem de Daniel e da Cia Churros de Polvo7.

Da acuidade da visada da direção, a escolha do tempo como mote e conformação na divisão da espacialidade não realista do espetáculo. Claro está que os trabalhos de cenografia são imprescindíveis. Mas sobressaltamos esse dispositivo, a repartição em duas bandas por uma fileira de cadeiras. No mais, é da ausência de signos de época o que faz saltar aos olhos.

Mais além da quase-obsessão de Daniel pelas cadeiras como objeto cênico8, arriscaríamos uma afirmação: tal fileira se se conforma como hiato, fenda, interstício, zona de imersão, talvez que pudéssemos incorrer no equívoco de atribuir a este não-espaço a ausência de tempo e movimento, espécie de não-lugar no qual a inércia e a catatonia fossem a garantia da prova dos nove, mas qual? Nada disso! Daniel Herz assume para si os efeitos ilusórios do trompe l’oeil, é que a esta zona intersticial, é que a este hiato, é onde a dinâmica dos movimentos se faz agônica, ainda que compassada, ainda que imenso marcada nos gestos e ações físicas dos atuadores.

Daniel Herz parece compreender, sem o dizer, que é de máxima saturação o suposto instante em que se desmantela integralmente a carnadura enrijecida do passado histórico. E Daniel simula o tempo, seu escorrimento, seu passamento na flexão de pernas troncos máscaras faciais gestos alinhados em coreografia. Está tudo ali disposto naquele centro onde é o mundo inteiro o que desanda. Alguns dos personagens terão pés de bronze fincados ao solo árido de um tempo passadiço. Outros saberão os modos da dança, os pés leves, os passos de pluma, a escorrer entre as franjas do que se anuncia. Se trata da aposta que se afirma. Daniel Herz e a Cia Churros de Polvo nos convidam a este bailado de máscaras mirando o horizonte em aberto.

André Queiroz é ensaísta e escritor, fazedor de cinema e de teatro, professor titular do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense

Esse texto expressa as opiniões do autor. 

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Fonte: anovademocracia.com.br

Publicado em: 2026-04-08 17:14:00 | Autor: André Queiroz |

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