O presidente Lula (PT) reforçou seu discurso sobre soberania nacional ao barrar a entrada no país de Darren Beattie, conselheiro do governo americano que queria visitar Jair Bolsonaro (PL) na prisão. A intenção do petista e do governo brasileiro é delimitar a influência americana sobre o Brasil, mas sem romper a relação que Lula tenta construir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em evento público na sexta-feira (13), Lula declarou que a revogação do direito de entrada do americano, aplicada pelo Itamaraty, é uma resposta brasileira ao cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), efetuado no final do ano passado.
O entorno de Lula receia que o governo Trump, que lidera as forças globais de direita, intervenha na política interna brasileira em favor do bolsonarismo, principalmente durante a eleição deste ano.
A tentativa de Beattie encontrar o ex-presidente e seu filho Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente da República e provável adversário de Lula na disputa de outubro, seria um movimento nesse sentido.
Auxiliares de Lula ouvidos pela reportagem ressalvam que é possível que o movimento de Beattie não tenha tido o aval direto de Trump.
Também afirmam que as negociações com os Estados Unidos para viabilizar a visita de Lula ao país não devem ser afetadas pelo episódio, apesar de alguns reconhecerem que o tom do presidente pode piorar o clima entre os dois países. A viagem do petista era esperada para o começo de março, mas tem sido postergada.
O governo brasileiro busca acordos com os Estados Unidos principalmente relacionados ao combate ao crime organizado. Trump usou o tema como pretexto, por exemplo, para agir contra a Venezuela. Um acordo sobre o assunto poderia servir como uma espécie de vacina contra algum tipo de investida americana.
Pesquisa Genial/Quaest indicou recentemente que uma contraposição aos Estados Unidos pode ajudar na popularidade de Lula. O levantamento, realizado de 6 a 9 de março, mostra que 48% dos brasileiros têm opinião desfavorável aos Estados Unidos, enquanto 38% são favoráveis. Em outubro de 2023, 56% tinham imagem positiva do país e 25%, negativa.
A relação entre EUA e Brasil teve um ponto mais baixo em 2025, quando Trump aplicou sanções econômicas ao país e as vinculou às investigações contra Jair Bolsonaro. O governo brasileiro buscou negociar e conseguiu a retirada de parte das sanções. Lula e Trump se aproximaram pessoalmente a partir de um encontro em reunião da ONU.
A possibilidade de retomar um discurso de soberania nacional vem no momento em que Flávio aparece empatado com o presidente nas pesquisas de intenção de voto.
Um dos melhores momentos da popularidade de Lula, em 2025, foi construído combinando os discursos de soberania nacional, taxação dos mais ricos com alívio de impostos para os mais pobres e contraposição a um projeto que blindaria congressistas de investigações.
Com um novo embate retórico contra os Estados Unidos seria possível retomar ao menos parte do ganho político obtido no ano passado. Falas nesse sentido foram proferidas ainda na sexta pelo presidente do PT, Edinho Silva. “A questão da soberania dos países infelizmente hoje está sendo debatida internacionalmente, por conta muito dessa postura agressiva do governo Trump”, declarou ele.
Ele também mencionou “lideranças políticas” se alinhando ao presidente dos EUA, referindo-se aos bolsonaristas.
Segundo a última pesquisa do Datafolha, Flávio dobrou suas intenções de voto no primeiro turno e hoje estaria empatado em um cenário contra Lula. O avanço do opositor veio acompanhado de uma oscilação na avaliação negativa do governo, de 37% para 40%.
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), defendeu a revogação do visto de Darren Beattie e criticou falas proferidas no passado recente pelo americano.
“A tentativa de Darren Beattie, assessor de Donald Trump, de visitar o condenado Jair Bolsonaro, não deu certo. E agora ficará sem visto de entrada no Brasil, por decisão do presidente Lula. O que é correto, porque tem várias autoridades brasileiras que tiveram seus vistos cancelados para os EUA”, escreveu.
Beattie tentou marcar um encontro com Bolsonaro após a defesa do ex-presidente solicitar autorização do STF (Supremo Tribunal Federal). Para isso, o conselheiro americano não procurou previamente integrantes do Itamaraty nem do Palácio do Planalto, como é praxe em visitas deste tipo. Hoje, Bolsonaro cumpre pena, em Brasília, por tentativa de golpe de Estado.
O americano chegou a ter seu pedido de visita autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, mas a defesa do ex-presidente requisitou que a data fosse alterada. Após isso, o ministro pediu informações ao Itamaraty sobre a agenda de Beattie no Brasil.
Como resposta, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, declarou que a visita do conselheiro poderia configurar “indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”, levando Moraes a recuar da liberação.
No pedido oficial, o funcionário americano justificava a visita com sua participação no fórum de minerais críticos da Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), a ser realizado em São Paulo – sem menções aos encontros com a família Bolsonaro.
Segundo diplomatas ouvidos pela Folha, é possível que a vinda de Darren Beattie, que pertence ao segundo escalão do governo americano, e o conflito entre as justificativas apresentadas não tenham sequer passado por avaliação do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.
Eles argumentam que os critérios para permissão de visitas diplomáticas como essa são valores compartilhados entre os dois países e que teriam sido avaliados pelo primeiro escalão antes da formalização do pedido à Justiça brasileira.
Publicado em: 2026-03-13 23:00:00 | Autor: Catia Seabra, Caio Spechoto, Mariana Brasil |


