O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), intensificou suas articulações políticas em meio ao julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Na última semana, Tarcísio pediu ao líder do PL, o deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), que lhe enviasse o texto do projeto de lei (PL) da anistia em tramitação no Congresso. O gesto foi acompanhado de recados ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), indicando interesse em marcar uma reunião para tratar do tema nos próximos dias.
Na manhã da segunda-feira (1/9), o governador esteve com Marcos Pereira (Republicanos-SP), presidente de seu atual partido, para discutir a proposta. Durante o encontro, ambos conversaram por telefone com Motta, que já recebeu aval do Republicanos para pautar uma anistia “ampla e irrestrita”. Paralelamente, Tarcísio também tem mantido diálogos com dirigentes do “centrão”, incluindo PP e União Brasil, em busca de apoio.
O movimento não é isolado. Em entrevistas anteriores, o governador chegou a afirmar que, se eleito presidente, seu primeiro ato seria conceder indulto a Bolsonaro, em resposta ao que chamou de “perseguição” judicial. A repetição desses acenos mostra a tentativa de se consolidar como herdeiro político do ex-presidente, justamente no momento em que sua viabilidade eleitoral depende de atrair a base bolsonarista de extrema direita.
O esforço ocorre porque Tarcísio busca se equilibrar entre duas frentes. De um lado, precisa conquistar a confiança da extrema direita, que ainda enxerga em Bolsonaro e no clã a “liderança natural”. De outro, tenta se apresentar como gestor “moderado”, capaz de dialogar com empresários, banqueiros e demais segmentos das classes dominantes que agora já sinalizam preferir um substituto “mais palatável” para 2026.
A base bolsonarista, no entanto, não está unida em torno do governador. Enquanto Jair Bolsonaro e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ensaiam abrir espaço para Tarcísio, os filhos do capitão-do-mato atuam abertamente em sentido contrário. Carlos e Eduardo têm intensificado críticas e ataques, acusando-o de não ser suficientemente leal e insinuando que, caso eleito, abandonaria o bolsonarismo para fazer “carreira solo” e se alinhar à direita tradicional.
Eduardo Bolsonaro foi explícito em entrevista recente ao canal no YouTube do jornalista Cláudio Dantas: “O perfil do Tarcísio não é de combate ao establishment, e é isso que a nossa base espera”. O deputado também reclamou que o PL estaria preparando terreno para a candidatura do governador em detrimento da própria família. “Se Jair Bolsonaro não concorrer, eu vou ter que procurar outro partido e sair candidato. Mesmo que seja derrotado, existe vitória na derrota”, afirmou.
As falas evidenciam o temor do clã de perder o controle sobre a base mobilizada desde 2018. Para eles, apoiar Tarcísio significaria abrir mão de influência para um mero aliado que, assim que chegasse ao Planalto, seria rapidamente assediado pelos setores do establishment, declaração que ganhou destaque em manchete no monopólio O Globo. O medo é que Tarcísio repita o roteiro de outras lideranças que embarcaram no bolsonarismo, mas acabaram se distanciando do que chamam de “bolsonarismo raiz”.
Tarcísio, contudo, aparece como o nome que pode unificar diferentes frações da direita: de um lado, os bolsonaristas mais ferrenhos que desejam a anistia de Jair Bolsonaro; de outro, as classes dominantes que enxergam nele uma alternativa de governo previsível, sem os sobressaltos tresloucados do clã.
Pesquisas recentes reforçam esse quadro, como o levantamento da Atlas/Intel divulgado no fim de agosto, mostrando que, em um eventual segundo turno, o governador aparece numericamente à frente de Luiz Inácio (PT), com 48,4% contra 46,6%, num empate técnico. Os números acenderam o alerta no Planalto.
A explicação para o avanço de Tarcísio passa também pela crise do governo. A mesma pesquisa indicou que a desaprovação de Luiz Inácio continua superando a aprovação, com queda mais acentuada entre os trabalhadores de renda média-baixa. Analistas associam esse desgaste às medidas de “ajuste fiscal”, além da taxação de compras de até 50 dólares em sites internacionais e à tentativa de limitar transações via PIX, aliada ao aumento de impostos. “A crise do Pix foi determinante”, disse Arilton Ribeiro, do Insper. “A percepção pública de excesso de vigilância nas transações, aliada à alta de alimentos, tributações sobre compras internacionais e ao aumento do IOF, contribuiu para elevar a desaprovação”, afirmou.
Esse conjunto de políticas do governo direitista e oportunista do PT tem alimentado a base para o crescimento de seu “antagonista eleitoral”. Ao mesmo tempo em que se distancia do “radicalismo” do clã Bolsonaro, Tarcísio busca pautar a anistia como demonstração de força política, se apresentando como opção viável para 2026.
Publicado em: 2025-09-02 18:53:00 | Autor: Redação de AND |

